


Texto escrito a partir dos ensaios do Coletivo Black Horizonte por Gil Amancio
A formação do Coletivo Black Horizonte e a criação dos espetáculos Ponto Riscado e Blacktronic é mais um passo que consolida o NEGA – Núcleo Experimental de Arte Negra e Tecnologia como um espaço de criação, encontro, pesquisa, produção e difusão.
O espetáculo Ponto Riscado começa do desejo de ir mais fundo nas pesquisas sobre arte negra e tecnologia. Ao ler um texto sobre a teoria dos Pontos Riscados da Umbanda encontrei a seguinte frase:
"Um ponto sozinho não gera encantamento,
mas vários pontos formam uma linha, e
várias linhas formam um ponto riscado”.
Essa frase foi o mote para dar inicio a criação do espetáculo.
A ideia era instalar um ambiente intermídia que favorecesse aos performadores criar polifonias visuais e sonoras, trabalhar com simultaneidades, dimensionalidades a partir da manipulação de elementos sonoros, cinestésicos e visuais
Ao ler o texto* sobre Pontos Riscados fui percebendo que a descrição que o autor fazia sobre os procedimentos do ritual da Umbanda também se aplicavam ao processo de criação artística que eu estava investigando. Enquanto lia sobre as configurações que geram campos de força e encantamento no ritual, e que a imersão nesses campos leva os participantes do ritual a um estado de transe que amplia a sensibilidade e a percepção do indizível fui encontrando ali, os fundamentos dos conceitos que estava trabalhando nos ensaios.
*Curso de Dirigentes da Fraternidade do Grande Coração 15a. Aula Pontos riscados(Texto baixado da internet)
O resultado desse trabalho cuja a luz era feita por um projetor que ao mesmo tempo servia para iluminar a cena e projetar imagens sobre o corpo do performador, foi um espetáculo que habitava as zonas de fronteira entre a dança, o teatro, a música e as artes visuais.
O nome "LIVE CINEMA” ou“Cinema ao Vivo" foi usado originalmente para classificar uma sessão de cinema silencioso, que tinha a execução de música ao vivo durante a sua apresentação. Mas isso foi no século passado, hoje o termo "LIVE CINEMA" diz respeito à execução simultânea de sons e imagens por artistas visuais que apresentam suas obras ao vivo diante dos espectadores.
São apresentações onde a improvisação e o acaso fazem parte de um processo que resulta na possibilidade de criação e vivência, por parte do público, de uma experiência cinematográfica expandida, agora mais do que nunca, também entendida como sensorial e imersiva.(texto retirado do site - http://www.livecinema.com.br/artigo/77)
Quando surgiu o convite para participar do Verão Arte Contemporânea vimos a oportunidade para mergulhar mais fundo nesse caminho e partimos para o segundo trabalho – Blacktronic.
Para tanto, foi necessário ir mais fundo no trabalho com a imagem, com a tecnologia digital de áudi e imagem e aprofundarmos nossa pesquisa sobre o Candomblé, o Congado e os mitos dos Orixas.
Nesse segundo espetáculo, a ideia era criar um ciber terreiro onde as narrativas visuais, sonoras coreográficas dos mitos africanos seriam transportadas, através do uso das tecnologia digital de audio e vídeo, para o universo dos filmes de ficção e dos quadrinhos.
Em Blacktronic, queríamos realizar uma experiência de criação de imagens em tempo real. Uma performance que emergisse do jogo e da improvisação dos elementos ali presentes (corpos, maquinas, dança, musica, texto, e imagem ).
Em uma conversa com Telma Fernandes (light designer) sobre Blacktronic ela fala que as imagens criadas durante o espetáculo ficam bidimensionais devido a falta de uma contra-luz no corpo dos performadores. Esse retorno nos mostrou o quanto estávamos mergulhando nessa linguagem que para nos era muito instigadora.
O processo de trabalho
O ensaio
Durante os ensaios nos interessava investigar como que nesses rituais os elementos ali presentes (a dança, a música, as arte visuais, a palavra, o corpo e a natureza) perdem o seu contorno e não conseguimos mais definir o que estamos vendo e ouvindo. Nossos sentidos se embaralham, perdemos a noção do tempo/espaço.
Ao mesmo tempo um espaço de resgate das memórias de cada um. Era durante os ensaios que cada dançarino (Dewson Mascote, Rodrigo Peres, leandro Belilo, Lola Peroni e Wallison Luiz) expunha os elementos de suas danças e juntos procurávamos os pontos de contato, confronto com as culturas que navegaram e navegam no Atlântico Negro. E esse material alimentava as nossas construções de narrativas corporais e cênicas. Durante o processo de criação dos dois trabalhos navegamos pelas danças do maracatu, do Congado, da Capoeira, do Kuduro, as danças dos Orixas, o Waking, o Footwork, o Krump, o House, o Break, o Sabah, as culturas de matriz africana e seus confrontos e lutas contra o racismo.
O que nos encantava nessas maneiras de dançar era a riqueza de elementos que elas exploravam. O Sabah por exemplo, tinha momentos que eu não sabia se quem tocava o tambor era o músico ou o dançarino e ao mesmo tempo, ao tocar o tambor o musico dançava. O Sabah era ao mesmo tempo uma dança teatral onde se construíam narrativas que resultavam das alterações de velocidades, dos fluxos das relações, interações, confronto dos corpos ali presentes entre si, com a música e com o espaço.
Essa maneira de dançar encantava a todos com a sua forma de expressar o sensível e nos colocar diante do indizível. Foi ali que percebi que havia uma estética do transe.
E é essa experiência do transe que buscamos em nossos ensaios. Daí não trabalharmos com marcação de cenas, coreografias, mas sim, com a experimentação de diferentes formas de interação entre artistas e máquinas, entre corpo, imagem e som, a fim de criar dimensionalidades, polifonias visuais e sonoras.
Porque com durante o espetáculo nosso interesse é propiciar tanto para os artistas como para o público o exercício do nosso bem mais valioso – a possibilidade de criar e de reinventar o mundo.
O exercício
Nossa rotina de trabalho se divide em dois campos: o da ampliação dos sentidos, para que nos artistas/criadores possamos perceber no mínimo gesto, rastro, sopro, som, movimento maneiras de sair das respostas estéticas previsíveis para os problemas cênicos que nos deparamos durante os ensaios.
E um outro onde buscamos aprimorar nossa capacidade de jogar, brincar e improvisar.
Porque ao lidar com esse universo que nos fala da existência de mundos paralelos – Orum e ayiê, dos pontos riscados, dos paradoxos de exu que dizem que sentado sua cabeça bate no teto e em pé é do tamanho de uma formiga, é preciso estar aberto, despreocupado, desinteressado para encontrar soluções cênicas que possam dar conta da riqueza poética e do pensamento complexo das artes e das culturas negras.
Quanto a tecnologia entra em cena
As tecnologias digitais de áudio e vídeo não é algo que surge por acaso ou por um modismo. Desde 1991 venho pesquisando o uso dessas tecnologias na cena. E na medida em que fui aprofundando os estudos no campo das artes e das culturas do Atlantico Negro fui percebendo o quanto o pensamento digital já estava presente nessas culturas. E que eram portanto, um elemento fundamental para o nosso trabalho. Nesse momento a vinda para o coletivo do Vj Tatu Guerra e da Artista visual Gabi Guerra foi fundamental para ampliar o diálogo e a pesquisa nesse campo.
As dificuldades
Ao longo do processo fomos percebendo que não bastava ter somente os equipamentos, era necessário fazer um trabalho de pesquisa e estudo de softwares de audio e de imagem, pluguins, câmeras, computadores, controladores, placas de audio que nos possibilitassem a utilização dessas tecnologias numa situação de jogo e de interação como a que presenciávamos quando estávamos diante de uma festa de candomblé ou numa roda de B.boys.
Ponto Riscado, e Balcktronic são resultados de uma busca obstinada dos artistas do Coletivo Black Horizonte de caminhos para as artes cênicas contemporâneas que procuram nas conexões entre artes e culturas negras e tecnologia a materialidade para as suas criações.